Artista plástico + Coletivo Mata Adentro

Dharma ou drama? A arte de ser quem somos

A impermanência é a lei máxima da vida em eterno movimento. Tudo se transforma à nossa volta, enquanto a morte e a vida, faces da mesma moeda, regem nossos sentidos diante do terror e do encantamento. Essa dança dual nos leva constantemente a reinventar nossa relação com o planeta, e com nossa própria percepção.

No dia em que completei 27 anos, a morte entrou sem bater à minha porta, e levou, na ponta de uma bala de metal, o meu irmão mais velho. Me dei conta da fragilidade da vida, e busquei saber o que me fazia ficar em pé naquele momento.

Em meio ao meu desamparo, deparei-me com a visão de um pequeno fio luminoso, alinhado em minha espinha, ligado entre o céu e a terra. Me agarrei a essa imagem sutil como um contrapeso momentâneo, mediante a ironia de que, um dia, minha própria morte será inevitável. Daquele vazio revelou-se um conteúdo, ou seja, a vida em mim contida era um potencial a ser dinamizado, desdobrado em toda sua complexa manifestação e significado.

A partir daí, corri minhas gavetas atrás de algum sentido para afirmar meu presente. Sintonizei com a vida que fluía na fonte de minha criatividade. Vendi tudo o que tinha e investi na inversão do meu diploma em comunicação em uma pós-graduação em artes, e saí atrás de mim mesmo.

Depois de muitos anos como pintor decorativo, optei pela escola crítica em uma pós-graduação em artes visuais na School of Visual Arts, em Nova York. Ativa no mercadão de arte, a faculdade brilhava como o alvo certeiro. Porém, a ilusão se revelou no despreparo do ambiente e no respaldo dos comentários. O estudo do processo pessoal buscava cegamente a construção de um formador de idéias geniais, com promessas de um vocabulário de vernissage. O programa nos conduzia em direção à busca de criações originais, recheadas de citações de celebridades, cifras e petulância.

A compensação foi que, durante a espera do começo do semestre, cursei quatro meses de Religião Comparada na The New School University. O estudo das tradições asiáticas me seduziu a ponto de me fazer freqüentar palestras de mestres budistas, entre o impacto do potencial do lixo das ruas e a simbologia atemporal alquímica. Os horizontes finalmente se alargavam. Não deu outra.  

Depois de três semanas na Índia, decidi me mudar da Big Apple para San Francisco. Encontrei em meio à natureza avassaladora da Bay Area um valor humano em outra dinâmica espacial, uma distinta energia coletiva de assimilação da vida. Foi então na Califórnia, paralelamente a outra pós-graduação, desta vez em Artes e Consciência, que me decidi por um treinamento de meditação chamado Aprendizado Shambhala. Pois já não bastava ler, a experiência determinava o entendimento.

Pela primeira vez me deparei com práticas meditativas e teorias expansionistas da percepção. Além das mesas espíritas e passes magnéticos. Desta vez o conhecimento chegou dissociado da experiência mística, veio em plena clareza argumentada e objetiva.

O livro Dharma art, da Shambhala Publications, foi, particularmente, um grande encontro. Chögyam Trungpa Rinpoche, seu grande difusor, determinou que dharma/arte não se aprende, se descobre; não se ensina, cria-se um ambiente para que seja descoberta. E assim tem sido. Tal encontro foi somente um anúncio de um processo em constante evolução.

Dharma art é uma compilação de palestras, de tradição milenar, proferidas dentro do programa de artes do Instituto Naropa (atualmente, Universidade Naropa). É um arsenal de ensinamentos que, associados à meditação, ajudam a transcender o drama materialista, através de ferramentas para a redescoberta do nosso cotidiano, usando a ótica do dharma, traduzido como a verdade, a ordem natural à qual todos somos subordinados.

Dharma/arte é a atitude criativa que é fruto do estado desperto meditativo. Despretensiosa e direta, é a expressão que surge da união criativa entre o artista e o público. Nela, a não-agressividade convida ao senso de humor que corta as fronteiras entre o eu e o outro, e a intuição brota como luz de valores fundamentais, inerentes a nossa natureza, como a elegância, a noção espacial e a bondade. A ponto de notarmos as coisas como elas são, em sua extraordinária capacidade de desdobramento de símbolos e linguagens.

Gradualmente comecei a perceber a qualidade ativa da contemplação. O exercício fez aflorar uma sensibilidade de dentro pra fora. Com a mudança de foco no self, a prática traz a passagem para o absoluto. Enquanto apreciamos o cotidiano — como lavar louça, esperar o trem, ou limpar a casa —, a consciência desses atos simples desacelera a vida, refinando assim o olhar, e a expressão artística contamina o dia-a-dia.

Descobri que os olhos vêem muito mais do que a mente pode perceber. Se deixarmos de lado tantas projeções mentais, naturalmente prestaremos mais atenção aos detalhes. Uma vez que o ego é deixado de lado, a percepção do simbolismo absoluto aflora, nos deixando ver o notável redimensionamento do mundo interno e o seu reflexo à nossa volta.

Trungpa insiste que o artista, além da meditação, deve propor-se ao desenvolvimento técnico e ao respeito ao legado da tradição. Sem o exibicionismo racional e tecnocrata, responsável pelos males do nosso tempo.

O medo da morte, reafirmado todos os dias em meio às banalidades da vida materialista, nos convida a um vazio existencial disfarçado de atitudes agressivas e fantasias de superioridade individual. Os fundamentos desse terror à impermanência da vida, o medo do fim do nosso corpo, conseguem ser anulados somente através da prática meditativa. Agora, como se sustenta essa disciplina incômoda de silêncio, foco e domínio dos pensamentos?

A atenção à respiração, esse movimento involuntário ligado à manutenção da vida, em seu ritmo, parece situar o individuo dentro do corpo. A consciência desse mecanismo pode servir como uma boa espreguiçada mental. Relaxado, o artista está apto a começar uma obra diante do dilema da tela branca, ou da pedra bruta.

A não-agressão é um processo orgânico, diferente de uma disciplina ou código moral. Não-agressividade é ver através da agressão, enquanto se percebe que há mais maneiras de ser ativo e eficiente, além da agressividade. Isso é realizar um novo ângulo de energia.

A atitude contemplativa, que nos ajuda a perceber a interconexão dos elementos e a interdependência das formas de vida, se revela em diversos mecanismos da simplicidade do dia-a-dia. Dharma/arte não se restringe ao repertório de elementos orientais. Por onde passou, Trungpa se familiarizou com uma rede de influências de linguagem e tradições. Sua base é o aqui e o agora, certo de que há lucidez na cultura global.

 

Dharma/arte nos faz o contraponto à vida ocidental, pontuada pelo drama de escolhas imediatistas e tendências escapistas da realidade. A diáspora tibetana presenteou o mundo com o vasto conhecimento e habilidade de seus mestres. Sua sabedoria inclusiva promove a assimilação de outras tradições, partindo de conceitos básicos da percepção humana para a construção de um mundo de sentidos integrados. Vivemos um momento único. Enquanto alguns continuam a guerrear, outros se abraçam para a cura espiritual e psicológica através da sabedoria adquirida e o amor complementar. Em meio à familiaridade com a perda e a morte, a resistência cultural, renovadora e criativa, se afirma na constante revelação de sentidos e esperança. Podemos ser ativos ao cuidar do planeta, ao rir de nós mesmos enquanto trabalhamos a desconstrução de nossos egos e experimentamos a arte de ser quem somos.

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Shambhala é uma sabedoria herdeira de antigas linhagens budistas do Himalaia, que ainda segue firme, ampliando-se pelo mundo. O seu difusor inicial foi Chögyam Trungpa Rinpoche (1939-1987), que nasceu no Tibete e exilou-se na Índia em 1959, após a invasão chinesa. Abade supremo dos mosteiros de Surmang, aos 18 anos graduou-se em Kyenpo (equivalente ao doutorado de Teologia, Filosofia e Psicologia), e em 1963 entrou para a Oxford University como Spaulding Fellow, e estudou Filosofia Ocidental, Arte, Religião e Línguas. Nos anos 70 fundou em Boulder, Colorado (EUA), o Instituto Naropa (uma iniciativa acadêmica nos moldes da Universidade Nalanda, da Índia medieval), cujo departamento de artes liberais incluiu uma série de palestras sobre dharma/arte, hoje transcritas em livro homônimo. Conviveu com Allen Ginsberg, William Burroughs, Meredith Monk, John Cage, Jack Kerouac, Diane DiPrima, entre outros. Criou uma rede internacional de centros de meditação e o Aprendizado Shambhala. Entre seus muitos livros, destacam-se Shambhala: a trilha sagrada do guerreiro, Além do materialismo espiritual e Meditação na ação.

Participe: Workshops e apresentaçoes com Meredith Monk no Brasil, de 11 a 15 de novembro.

Visite :http://www.dharma.art.br/programacao/index.shtml

Consulte:

Shambhala International

Shambhala Brasil

Dharma/Arte

Dharma/Arte

de Chögyam Trungpa

Trecho do livro

© 1996 by Diana J. Mukpo

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução por qualquer meio.

O termo dharma/arte não se refere a uma arte com símbolos ou temas budistas, como a roda-da-vida ou a história do Buda Gautama. Refere-se à arte que surge de um estado da mente do artista que poderia ser chamado de estado meditativo. É uma atitude direta, despretensiosa, no trabalho criativo.

 

O problema básico em qualquer empreendimento artístico é a tendência de separar o artista de seu público e então tentar enviar mensagens de um a outro. Quando isso acontece, a arte torna-se exibicionismo. Alguém pode ter um momento de inspiração e correr para “colocá-lo no papel”, a fim de impressionar ou excitar os outros. Um artista mais metódico pode ter uma estratégia para cada passo de seu trabalho, a fim de produzir determinados efeitos em sua audiência. Essas abordagens, no entanto, por mais bem-intencionadas ou tecnicamente habilidosas que sejam, inevitavelmente se tornam canhestras e agressivas em relação aos outros, e ao próprio artista.

 

Na arte meditativa, o artista incorpora seu público como o criador de sua obra. A visão não se separa da operação, e não se tem medo de ser canhestro ou de não ser bem-sucedido em realizar sua aspiração. O artista simplesmente faz uma pintura, um poema, uma peça musical, qualquer coisa. Nesse sentido, um novato poderia tomar um pincel e, com o adequado estado mental, produzir uma obra-prima. Embora possível, essa abordagem é muito incerta. Na arte, assim como na vida em geral, temos de estudar a técnica, desenvolver nossas habilidades e absorver o conhecimento e o insight que a tradição nos legou.

 

Mas, quer tenhamos a atitude de um aluno que poderia adquirir maior proficiência ao lidar com sua matéria-prima, ou a atitude de um mestre realizado, quando criamos uma obra de arte há um sentido de total confiança. Nossa mensagem é a de apenas apreciar a natureza das coisas como elas são, expressando-a sem nenhuma luta de pensamentos e medos. Abrimos mão da agressão, em relação a nós próprios — como se tivéssemos de fazer um esforço especial para impressionar os outros — e aos outros — como se pudéssemos passar algo para eles.

Arte genuína — dharma/arte — é simplesmente a atividade da não-agressão.

 

Texto publicado na revista MAG!, n.o 4, abril de 2007, p. 98-99

Marx e a Revolução

Roberto Burle Marx (1909-1994), um dos maiores paisagistas do nosso tempo, é um artista único em sua pluralidade criativa. Sua arte integrada, ajudou a expandir a estética concretista além de sua rigidez formal. Reconheceu-lhe o ambiente natural, a partir de uma compreensão maior daquilo que chamava “o todo orgânico”, que envolve o meio e o homem.

Seu legado artístico se ramifica no domínio de vários meios.
De fundamento renascentista, sua obra celebra a colaboração, a ação entre as partes, anunciando a necessidade da sustentabilidade ambiental, baseada na parceria com a natureza, nos revelando maneiras de assimilar seu modo organizacional, como sócios de uma criação delicada e violenta.

Foram mais de dois mil projetos paisagísticos, que conviveram com a pintura, escultura, litogravura, arquitetura, tapeçaria, cerâmica, estamparia, cenografia, design de jóias e figurino. Musicista, o barítono Burle Marx, gozou de um intenso círculo de amigos, professores e colaboradores: de Mário de Andrade a Portinari, de Le Corbusier a Gropius, entre biólogos, agrônomos e poetas, cozinheiros e caboclos.

Avesso aos estrangeirismos,o paisagista diluiu o preconceito contra a natureza tropical, comumente vista como exótica e ameaçadora. Preconizou a preservação de nossas reservas como esforço fundamental para a saúde do planeta e para nossa identidade. Ele denunciou a crescente força destruidora do ambiente natural, validado pela corrente desenvolvimentista.

Seguindo o caminho de naturalistas viajantes como Von Martius, Saint-Hilaire e Gardner, Roberto realizou numerosas expedições por todo território nacional. Coletou espécies, entre as quais, algumas batizadas com seu nome. Nos trouxe a noticia de que muito ainda há por descobrir.

A planta é o seu objeto, matéria-prima não estática, indissociável do ecossistema. Tal conceito reverbera por toda sua obra. A estrutura poética que emana dessa relação com a natureza, vislumbra profundas analogias para o desenvolvimento contemporâneo do termo arte ambiental.

Seus jardins são composições com apelo formal de beleza indiscutível. Um conjunto inovador de ritmo e harmonia, entre o orgânico e o geométrico, fruto de associações fundadas sob um conhecimento sensível de fatores como: zonas de transição, simultaneidade, instabilidade, dispersão, fluidez e mobilidade. Termos comuns para a discussão da evolução antropológica, no tratamento de nossa problemática sócio-cultural, como sociedade e coexistência.

Embora tenha criado obras monumentais em jardins privados, o paisagista deixava clara sua predileção pelo espaço público. Burle Marx defendeu a sua multiplicação, como praças e parques, reservas florestais para cada município. Onde o equilíbrio, busca motriz do homem, pode se dar em ressonância com a fertilidade da cultura popular, em respeito aos modelos de preservação e cultivo, às dinâmicas da ação natural e à tradição dos povos da terra.

O seu Sítio Santo Antônio da Bica, em Guaratiba, RJ, reduto de uma das maiores coleções de plantas tropicais e sub-tropicais do planeta, foi doado em vida para o Estado. Hoje, o chamado Sitio Burle Marx está sob tutela do IPHAN, para garantir a integridade física e manutenção da propriedade. Esse tesouro pode ser visitado, como também o aconchego de sua casa, sua coleção de arte e artesanato, seus vários ateliês e laboratórios, envoltos por uma atmosfera construída para celebrar a vida.

Criticado pela escassez de textos teóricos acadêmicos, Burle Marx, prioriza a liberdade intuitiva em sintonia com o pragmatismo de sua extensa experiência. Suas numerosas conferências, registradas durante quatro décadas, organizadas por José Tabacow, nos permite uma visão panorâmica de seu pensamento em suas próprias palavras, relacionando jardim, ciência, ecologia e arte brasileira, sempre insistindo no fato de que não se pode falar de estética paisagística isoladamente, enquanto declarava os dois sentimentos que marcavam a sua visão de mundo e da natureza, “…de que São Francisco de Assis foi um paradigma: – o amor que nos impulsiona, e a humildade que nos corrige.”

BIO
Nascido em plena Avenida Paulista, ainda criança muda-se para uma chácara no Leme, Rio de Janeiro. Filho de pai alemão e mãe pernambucana, foi educado ao som de Wagner, embora preferisse Debussy e os roseirais de sua mãe. Em 1928 viaja com a família a Alemanha, onde por mais de um ano visita oculistas, entra em contato com as vanguardas artísticas, freqüenta concertos, óperas, mas em especial as estufas de plantas brasileiras de Dahlem.
De volta ao Brasil, um vizinho ilustre, o arquiteto Lucio Costa (posteriormente, executor do plano diretor de Brasília), lhe encomendou o primeiro jardim. Deu-se ai o começo de sua trajetória, tornando-se uma figura clássica do modernismo brasileiro. Foi diretor dos Parques e Jardins de Pernanbuco em 1930.
Burle Marx, colaborou com grandes projetos urbanísticos e exposições em quase todo Brasil além da Venezuela, Cuba, EUA, Malásia, entre outros com a ajuda inestimável de sua equipe. A partir de 1965, participaram ativamente como sócios do paisagista, – José Tabacow, até 1982 e Haruyohi Ono, até o falecimento de Burle Marx – na elaboração de importantes projetos como o Centro Cívico Santo André (1967), Jardins dos Ministérios do Exército, Agricultura, Justiça, Relações Exteriores, em Brasília, Edifício da Petrobrás (Rio de Janeiro -1969), Passeios de Copacabana (1970), Ministério do Exército – Brasília (1970), Largo da Carioca, Rio (1981), Banco Safra, São Paulo (1982), entre outros.

Serviço

Sítio Roberto Burle Marx,
Estrada Burle Marx 2019, (antiga estrada da Barra de Guaratiba),
Barra de Guaratiba, RJ, 
CEP: 23020-240
Tel/Fax: 0xx21 2410 1412 (Marcar visita) Email: srburlemarx@alternex.com.br

Bibliografia
Roberto Burle Marx – Arte & Paisagem
José Tabacow (org.)
Studio Nobel 2004, Segunda Edição

Roberto Burle Marx, uma fotobiografia, Soraia Cals, 1995
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Burle Marx, Espaços da Arte Brasileira, Vera Beatriz Siqueira, Cosac & Naify, 2001

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