Vazio é o dos gigolôs da Arte por Mauro Chaves
Sábado, 08 de Novembro de 2008 | Versão Impressa no jornal “O Estado de São Paulo”
Vazio é o dos gigolôs da Arte
Mauro Chaves
A pretensiosa e constrangedora “Bienal do Vazio”, em lugar de refletir, criticamente, a vacuidade dos conceitos, caminhos e resultados da produção artística contemporânea, no Brasil e no mundo – como, certamente, imaginam seus petulantes curadores -, não passa de uma tremenda vigarice, destinada a enganar incautos e ignorantes com um bestialógico argumentativo que tenta camuflar o profundo vazio mental de seus organizadores. Não deixa, porém, de refletir dois fenômenos deletérios que se antepõem à produção artística brasileira – a qual está bem longe de ser vazia, antes pelo contrario.
O primeiro é o da infestação dos “gigolôs da Arte”: aqueles que, apropriando-se de instituições, fundações e entidades criadas para incentivar o desenvolvimento das Artes no País, delas procuram tirar indevidos proveitos, tal como fazem os “cartolas” do nosso futebol. Eles se penduram nessas instituições, renovando sistematicamente seus mandatos graças à cooptação de conselheiros – às vezes personalidades respeitáveis, que se tornam dóceis cupinchas. Realizam espúrias transações entre as instituições que dirigem e empresas nas quais têm interesse privado, seja envolvendo publicidade, operações de factoring, de corretagem de seguros e coisas do tipo, em beneficio próprio ou de parentes.
É claro que os escândalos que surgem, quando vêm à tona tais indevidas locupletações, só podem desprestigiar essas instituições e espantar o mecenato – com o qual sempre contaram a Cultura e as Artes, independentemente de incentivos ou renúncias fiscais. Com a falta de doações e a má gestão, certamente se agravam as crises financeiras de entidades cujos custos de manutenção são cronicamente superiores às receitas que auferem.
O segundo fenômeno de emperramento da Arte, no campo específico das artes plásticas, advém da absurda supervalorização de atravessadores culturais, designados por “curadores”. Quem são eles? Não são críticos, mas posam de. Não são marchands, mas podem ganhar mais que estes, sem riscos. Não são decoradores – embora às vezes aí esteja o limite de sua contribuição nas exposições.
Na verdade, com as honrosas exceções de praxe, “curadores” são especialistas em juntar o aleatório, camuflando-o de “coerência conceitual”. Misturam peças e artistas, aos quais atribuem – em linguagem sempre arrevesada, que os próprios artistas nunca entendem (muito menos o público) – “interpretações” que retiram da cabotina cachola, quando não as extraem de leituras pouco assimiladas sobre História da Arte. Exemplo disso é o amontoado desconexo de “explicações” sobre a vexaminosa “Bienal do Vazio”, em melancólica exposição no Ibirapuera. Bastaria mencionar algumas de suas frases: “Esta Bienal não é sobre produção artística”; “estamos propondo um outro tempo de ver uma exposição”; “este projeto nunca se colocou como uma negação. O vazio se propõe como espaço de potência, de repensar, entrar o ar”; “não haverá visitas para escolas. É uma exposição toda auto-identificável e auto-explicada”; “a gente tinha de vir com um modelo assim mais estranho. A Bienal precisa fazer esta parada”; “o modelo de instituição foi criado a partir do modelo da filantropia americana. Isso não pegou aqui, porque nós somos católicos, não protestantes”; “o público que vem à Bienal é o que vai à Flip, em Paraty. São os 10% do Brasil, ou seja, uma Suíça.”
Citemos, agora, o que disseram dois grandes artistas sobre a “Bienal do Vazio”. Escreveu Caciporé Torres, o único artista brasileiro vivo que participou da 1.ª Bienal Internacional de São Paulo. “Devo o início de minha bem-sucedida carreira artística a esta instituição, pois aos 16 anos enviei trabalhos, que não só foram aceitos como também premiados: recebi o prêmio Viagem à Europa, que me proporcionou dois anos de estudo na França e na Itália. Tornei-me assim um artista respeitado ainda muito jovem e, depois, participei de outras seis Bienais, tendo sido premiado outras três vezes. Participei também das Bienais de Veneza e Paris.(…) Na época em que comecei a Bienal, criada por iniciativa do memorável Ciccillo Matarazzo, funcionava como um grande salão aberto a todos os artistas que desejassem inscrever seus trabalhos.” Agora, Caciporé foi procurado por jovens artistas decepcionados e indignados, sem oportunidade de mostrar seus trabalhos – enquanto a Bienal exibe seu imenso espaço vazio de obras e idéias.
Escreveu Antonio Henrique Amaral: “A confusa montagem das obras expostas em meio a tapumes os mais variados, como se fossem divisórias, permite ao visitante assistir a diversos vídeos que desde os anos 60 sempre estavam presentes nas exposições como novas mídias. Hoje, nem tanto. Alguns artistas interessantes são identificados e suas obras ficam perdidas nessa triste e melancólica confusão de tapumes de compensados, banquinhos, mesas, muita madeira compensada, de maneira que a gente pensa mesmo que a exposição não pôde ser finalizada por falta de verba e de planejamento. Uma amostra que pretensiosamente se diz contemporânea e expressão de sofisticado e misterioso conceito que faz uma ?reflexão sobre o futuro das megaexposições?, mas que reflete apenas a pobreza de conceitos dos seus organizadores. Não é uma Bienal Internacional de São Paulo. É outra coisa, uma mostra precária, tímida, pretensiosa, que empobrece a obra dos artistas participantes e que ignora a obra de um imenso número de artistas brasileiros e estrangeiros, que estão vivos e atuantes, no Brasil e no exterior, para não falar na ausência total de tecnologias aplicadas ao fazer artístico.”
É preciso dizer mais, para mostrar que este é o vazio dos gigolôs da Arte e de seus incuráveis “curadores”?
Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor. E-mail:mauro.chaves@attglobal.net
Aracy Amaral escreve sobre a 28a Bienal
Sexta-Feira, 31 de Outubro de 2008 | Publicado hoje no jornal o Estado de Sao Paulo
Esta Bienal… reflete a arte contemporânea?
Talvez a 28.ª edição seja espelho da debilidade da instituição e não da expressividade do circuito
Crítica Aracy Amaral
A gente entra; e de imediato se indaga, constrangida: a “isto” se viu reduzida a Bienal de São Paulo? Mas é bom que se saiba: a indigência presente na Bienal de várias maneiras e que vimos na noite de abertura não reflete a arte contemporânea. Ela é antes espelho da debilidade de uma instituição. Não há necessidade de fazer simpósios ou seminários sobre o assunto. Também entendemos que a Bienal não é festival de artes em geral. Em São Paulo, a oferta de espetáculos de dança, música e teatro é imensa o ano todo e teria sido desnecessário o que se despendeu ocupando o espaço com essas atividades.
Quando se viaja ao exterior e se vêem exposições marcantes de artistas em grandes museus como a Tate Modern, em Londres, ou em Viena, no Ludwig Museum, ou em Nova York no MoMA ou Whitney, só para citar alguns, damo-nos conta do que está se passando em arte contemporânea. Como ao visitar uma Documenta de Kassel, por exemplo.
Também as grandes feiras internacionais de arte nos passam uma imagem viva da efervescência do meio artístico, seja com as obras expostas, ou com seminários que realizam.
Se entre nós o problema foi falta de verba que caberia à presidência da Bienal providenciar, essa presidência está no lugar equivocado, pois essa é a sua competência. Se a escolha do curador foi tardia, a responsabilidade é da instituição e da curadoria que aceitou, assim como a proposta e suas limitações, pela simples necessidade de vê-la aprovada por falta de tempo para executar ou conceber outro projeto.
Até detalhes paralelos à “proposta” de Ivo Mesquita podem ser criticáveis. Como a apresentação de “documentos da Bienal”, pois afinal, o Arquivo Wanda Svevo sempre esteve aberto a pesquisadores e não precisava ter sido deslocado para o terceiro andar nem facilitar o manuseio de catálogos raros por parte de qualquer visitante sob risco de perda ou vandalismo.
Tentemos falar claro. Esta Bienal parece antes preconceituosa – em sua preocupação em não mostrar artistas de outras tendências, mas apenas aqueles rigorosamente conceituais . Afinal, para citar apenas um jovem artista brasileiro e um do jet set, as imagens poderosas de um Henrique Oliveira acaso foram cogitadas? Um Damien Hirst, artista há 20 anos “estrela” no meio internacional, não seria interessante ter sido apresentado? A arte chinesa de hoje (e mesmo a coreana !), espanto em grandiloqüência, mas sem dúvida um fenômeno das artes visuais de nossos dias, e atual “darling” de museus e centros culturais de todo o mundo ocidental, por que não está presente? Na linha de “happenings”, por que não pensar nos 40 anos depois do Grupo “actionista” de Viena, do qual fizeram parte Schwartzkogler e Gunther Brus, performáticos e violentos em suas manifestações e expressões ao vivo e em vídeo? O Ludwig Museum de Viena comemorou com grande exposição em junho-julho último essa documentação forte, embora os jovens de hoje raramente saibam que existiu e creio que pouco se comovessem ao ver esses documentos. A arte também envelhece. Mas, enfim, há tantas vertentes das artes visuais no mundo que a pálida 28ª Bienal pode passar ao visitante incauto a falsa impressão de que nada mais ocorre na área. Ou, que não há nada de outros tempos que bem valeria um gesto generoso por parte do “Conselhão” ou Comissão (?) da Bienal em aprovar, recomendar e levantar fundos para sua apresentação. Afinal, repetimos, fortunas não nos faltam em particular neste Estado. E temos em mente que presidir uma Bienal de São Paulo, ou candidatar-se a esse cargo, pressupõe minimamente séria responsabilidade.
Mas, ou se apresenta evento digno dessa tradição – Bienal de São Paulo – ou se reformula a existência ou freqüência do evento, como sugerimos há mais de 30 anos em simpósio latino-americano ocorrido aqui na Bienal mesmo para que ela se transforme em trienal ou quadrienal. Embora nossos profissionais, enquanto curadoria, sejam dignos de respeito, nada mal se em bienais alternadas tivéssemos curadores convidados de outros países, do mais elevado nível, para formar e diversificar as equipes que se formam no Parque do Ibirapuera.
Se não se pertence ao círculo fechado do “Conselhão”, ou dos que decidem o que entra e o que não entra -, pois estamos distantes da organização por parte dos países convidados para que tragam seus artistas indicados pela curadoria da Bienal – nunca será veiculado quais os que foram convidados e não compareceram, por recusa, ou porque não houve orçamento possível.
No terceiro andar, sem dúvida o que mais chama a atenção são os móveis de marcenaria de mesas, cadeiras e bancos, que seriam muito bem-vindos em centros culturais sem recursos ou mesmo em creches de nossos bairros mais carentes, segundo observou Ana Maria Belluzzo.
Como descobrir uma proposta interessante da fértil Rivane Neuenschwander em meio às mesmices expostas, como as reproduções nas paredes ou papéis em vitrines que dificilmente despertam nossa atenção? Referimo-nos à monotonia da arte conceitual, a nos recordar das maçantes exposições de galerias dos anos 70 em Nova York (“como são chatas!”, nos dizia Hélio Oiticica, só para citar um nome respeitado em nosso meio). Naquele tempo, só de penetrar numa dessas galerias, dar uma olhada às pranchas penduradas com palavrórios mil e cálculos matemáticos já era suficiente para nos expelir do recinto.
Não deixamos de notar o assédio curioso de uma obra por parte do público que ocasionou a única longa fila que vimos no dia da abertura – a possibilidade de penetrar no tobogã do belga Carsten Höller – para poder usufruir da adrenalina na queda vertiginosa. Na verdade, esse trabalho, de verdadeira interação com os visitantes, talvez seja o único da Bienal a alcançar a escala de bienais passadas em termos de expectativa: “Quero ir à Bienal para ver tal trabalho.”
Allan McCollum, uma raridade igualmente, parece ter trazido, com seu envio, aquilo que eu consideraria um “trabalho para um espaço de Bienal”.
Por isso me pergunto, espantada diante do que está exposto, como preparar visitas guiadas de escolares? Como explicar “artes visuais contemporâneas” a um público infantil ou adolescente nesta Bienal? Ou, como justificar a existência das Bienais?
Convenhamos: como ouvir tranqüilamente que é “genial” o piso geométrico de Dora Longo Bahia, que deve ter sido de difícil implantação, por certo, para seus auxiliares, com desenhos a nos lembrar azulejos hidráulicos magnificados, ou de inspiração islâmica?
Na verdade, ao ver a diminuta peça de Iran do Espírito Santo, parece que esta Bienal, salvo exceções, pelo teor das propostas, parece feita de presenças antes para a elite freqüentadora de galerias do que baseada numa concepção considerando o grande publico. O que significa isso?
Significa que num evento “bienal”, “trienal”, em particular num país como o Brasil, de extrema desigualdade social e educacional, os espaços, a cidade, as obras e os visitantes devem ser pensados em termos interativos, como alvo de motivação e não apenas de exibição.
Assim foi o propósito, a meu ver, que ocasionou a vinda da Guernica (em 1953-54), da sala Mondrian, da sala Picasso, da sala Van Gogh, do pop norte-americano já em meados dos anos 60, e de tantas outras salas especiais, como a dos artistas modernos e modernistas da Bienal da Antropofagia. Ou mesmo da Bienal da Grande Tela, sob a curadoria de Sheila Leirner, em 1985, ao trazer-nos a nova pintura dos anos 80. Claro que o Brasil mudou, e nossos museus e centros culturais idem. Assim, temos tido grandes exposições nos últimos 10-12 anos. Mas quem sabe os tempos agora ficarão mais magros e teremos que batalhar por novas oportunidades?
Mas, afinal, o que eu vi na abertura da Bienal? Muita “arte de processo”, tendência típica dos anos 70, ou simulacros, como uma pseudoloja de rua reproduzida no interior da Bienal (Chaveiro, de Paul Ramirez Jonas), pseudográfica com impressão de jornais (Erick Beltrán), folhetos conceituais humorosos (ou não), e por vezes criativos, como sempre são distribuídos nas Bienais ao longo do tempo; entre vídeos modestamente dispostos, ao largo do circuito “nobre” do espaço, como alternativa para eventual outra visita do apreciador.
Melhor não mencionarmos a museografia, a organização do espaço desta Bienal. Nem há etiquetas dos autores dos trabalhos em suas proximidades. Talvez entendam os curadores que os folhetos com mapas impressos sejam suficientes… Não o são. Passa uma idéia de descaso para com o visitante, de falta de tempo para os “finalmente” do evento.
O que é o “espaço vazio” da Bienal? Prédios e habitações vazias em nossos tempos são um convite certo à “invasão”. Se não ocorre “ocupação”, vamos ocupá-los. Assim pensaram visitantes de um museu, cujo diretor, na década de 80, deixou o espaço vago para motivar a população, numa cidade no sul da França, a ocupá-lo com objetos e obras que traziam de casa. Mas acontece que hoje vivemos em tempos bem mais agressivos.
Colocar como alvo de admiração o espaço concebido por Niemeyer, e que usufruímos há mais de 50 anos, poderia ser projeto para uma Bienal de Arquitetura de São Paulo. Mas esta é a 28ª Bienal. Assim, não tem sentido, e mesmo a definição desse espaço pela curadoria parece-nos equivocada se não for de humor (?) dúbio (*). Assinala falta de idéia, de concepção, de tempo, de orçamento. Ou tudo junto. Se o desejado é a polêmica sobre a provocação, então o objetivo foi alcançado. Mas o “void”, com certeza, é uma omissão. Nada tem de rebeldia. E se o curador da Bienal, Ivo Mesquita, aceitou os termos da presidência, as regras do jogo, quando aceitou, não se pode dizer apenas que “salvou” a Bienal por ter ela sido realizada em menos de um ano. Pode-se ser mais incisivo: dizer que ele “quebrou o galho” para a atual presidência. E certamente poderá até ser elaborado um catalogo bilíngüe pleno de textos sobre a filosofia da arte de nosso tempo.
Na verdade, há algo de cinismo murmurado, reconhecido e vivenciado no meio artístico contemporâneo. O conceitual é bem imaterial, mas aqueles que sobrevivem vendem, ou viajam a convite para expor suas criações. A própria crítica, as curadorias, a mídia, o sistema de galerias e museus, todos enfim contribuímos amplamente para esse fim, apesar do que se publica em vários países sobre esse fenômeno. Isso se deve ao fato de se escrever, em geral em literatura pouco acessível ou pedante, sobre obras sem nenhum ou parco valor, para um público reduzido que acredita erroneamente que quanto mais hermético mais elevado.
Mas é certo que a criação contemporânea é um instante de trânsito, entre o passado e o futuro, pois como prever qual será exatamente o tipo de expressão visual dentro em pouco com os avanços da nanotecnologia, da internet, do papel eletrônico ou da fotografia digital, que influenciarão várias formas de manifestação?
*No folheto distribuído ao público é definido esse espaço e sua concepção: “2.º andar: Planta Livre – Ao contrário das bienais anteriores, que transformaram todo o interior do pavilhão modernista em salas de exposição, desta vez o segundo andar está completamente aberto, revelando sua estrutura e oferecendo ao visitante uma experiência física da arquitetura do edifício. O termo ?planta livre? refere-se ao conceito criado por Le Corbusier, em 1926, para definir um dos cinco princípios da nova arquitetura.”
Aracy Amaral é crítica e historiadora de arte
Gustavo Martins escreve sobre Rodrigo Bueno e a Bienal
Artista que se retirou da Bienal de SP montará instalação no parque Ibirapuera
GUSTAVO MARTINS
Da Redação
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Croqui do artista plástico Rodrigo Bueno para o projeto de ocupação da Praça dos Mastros, ao lado do prédio da Bienal |
O artista plástico campinense Rodrigo Bueno, que estava entre os selecionados para a 28ª Bienal de Arte de São Paulo e retirou-se na semana passada por desentendimentos com a curadoria do evento, afirmou ao UOL que vai realizar as duas obras incialmente projetadas –uma instalação que reaproveita o lixo produzido dentro e no entorno do parque Ibirapuera e uma performance– do outro lado do parque. O local escolhido foi uma das salas da Universidade Aberta do Meio Ambiente e da Cultura da Paz (UMAPaz), entidade criada em 2006 que ocupa um prédio próximo ao viveiro Manequinho Lopes, no lado oposto ao que ocupa o prédio da Bienal.
“Encontrei muito mais respaldo ali do que tive na Bienal”, diz Bueno, que aponta o corte de gastos como um dos motivos de seu atrito com os curadores Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen. “No começo, disseram que eu não precisava me preocupar com orçamento, mas, conforme o projeto avançava, não quiseram liberar nem energia elétrica”, afirma o artista.
Quando tanto Rodrigo Bueno quanto os curadores decidiram que a montagem da instalação no espaço inicialmente previsto, a Praça dos Mastros em frente à Bienal, seria inviável, o artista recebeu um convite para fazer uma performance no dia 20 de novembro, mas desistiu. “Os grupos comunitários que participariam não viam credibilidade na Bienal”, diz Bueno.
Em uma carta enviada à imprensa na semana passada, o artista disse desejar “boa sorte para que a instituição encontre outros caminhos, pois o momento de renovação é inevitável”. A Bienal, por meio de sua assessoria, afirmou que não comenta a saída de Bueno do evento.
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Foto tirada por Rodrigo Bueno da praça onde ficaria a instalação; espaço permanecerá vazio |
Reciclagem e piquenique
Dentro da UMAPaz, a instalação “Terreiro”, de Rodrigo Bueno, vai aproveitar resíduos produzidos pelo parque, como madeira de galhos caídos e o lixo despejado pelos visitantes, para criar esculturas e objetos artísticos. A proposta, segundo o artista, foi outro dos motivos de atrito com a Bienal: “Eu não tinha idéia de como é tensa a relação da Fundação Bienal com o parque Ibirapuera. A proposta de colocar esses dois universos ‘em vivo contato’ [tema da 28ª Bienal] não foi bem aceita por nenhum dos lados”. Ainda de acordo com Bueno, os curadores não aprovaram a idéia de “remexer o lixo” da Bienal.
”Terreiro” vai acontecer de 14 a 16 de novembro, como parte do encontro de coletivos artísticos “Reverberações”, organizado pela performer e curadora Flavia Vivacqua. A instalação é aberta a todos os grupos presentes no parque, desde freqüentadores dos cursos de jardinagem até skatistas, mas será dada preferência para os inscritos no encontro (a inscrição é grátis e deve ser feita até 5 de novembro pelo email reverberar.encontros@gmail.com).
A performance planejada por Rodrigo Bueno, que acontecerá no mesmo dia proposto originalmente pela Bienal (20 de novembro, Dia da Consciência Negra), é um “bate-folha” em homenagem a Zumbi dos Palmares. Bueno define o evento como uma espécie de “piquenique com ritmo”, no qual as pessoas são convidadas a trazer comida e instrumentos de percussão e interagir em espírito colaborativo, “relembrando o conceito de quilombo”. O evento, que será realizado em frente ao viveiro Manequinho Lopes, terá início ao meio-dia e é aberto a todos os interessados.
”TERREIRO”
Onde: UMAPaz – av. IV Centenário, 1268, Portão 7-A, Parque do Ibirapuera – tel. (11) 5572-1004 / 5572-8037
Quando: 14, 15 e 16 de novembro
Quanto: grátis, com inscrição
”BATE-FOLHA PARA ZUMBI”
Onde: Viveiro Manequinho Lopes – Parque do Ibirapuera
Quando: 20 de novembro, a partir das 12h
Quanto: grátis
ERRATA: POR ENQUANTO ESTA DEFINIDO QUE SOMENTE OS ESCRITOS TERÃO A OPORTUNIDADE DE VISITAR O ESPAÇO IMERSIVO TERREIRO NA UMA PAZ.
O trabalho que não coube no vazio

O trabalho que não coube no vazio
O Terreiro e a Bienal. O desencontro em vivo contato.
O convite para ativar o espaço de aproximadamente dois mil metros quadrados para a Bienal chegou como uma fresta na rigidez da estrutura da instituição. O espaço semi-aberto proposto para a ocupação, em meio à aridez do asfalto, na Praça dos Mastros (hoje sem as bandeiras), serviu de inspiração para a ocupação do ambiente.
A força da terra, do tempo que racha o asfalto e faz brotar o verde, das ervas que pulsam resistentes, remete às tribos indígenas que foram expulsas pelos posseiros bandeirantes, nos rastros do invasor Pedro Álvares Cabral, até hoje entronado em pedra e bronze.
O tema ‘vivo contato’ inserido no convite foi a motivação para criar um lugar de encontro entre as forças pulsantes, um lugar aberto onde as diferenças poderiam dividir sua própria origem, assim como faço no ambiente aberto do ateliê-mocambo Mata Adentro, que recebe fontes de cultura de todos os cantos.
A curadoria pediu um ambiente de convívio festivo, unindo os elementos da cultura, como artes visuais, música, plantas, dança, poesia e comida, além de agregar um receptivo para as iniciativas culturais que seriam convidadas a participar do programa educativo. A idéia era amplificar, no Terreiro, o ambiente de sensibilização naquele espaço, através do aconchego sensorial, utilizando resíduos como matéria-prima que escolhi para construir esta ponte ambiental.
Já há muito tempo o uso de resíduos faz parte do meu trabalho. Para a ocupação da Bienal, usaria resíduos materiais e imateriais. Resíduos que contêm memória e peso. Resíduos da nossa cultura fragmentada, carente de reparação, auto-estima e dignidade. Resíduos do parque, das ruas e principalmente das caçambas das montagens que sustentam a Fundação Bienal.
Porém a relação entre os grupos que fazem do Parque um ser vivo e a Bienal gerou vácuos de diálogo difíceis de contornar.
O Terreiro, como extensão da grande praça, projeto luminoso que buscava a celebração sem catracas, que ainda convidava o povo periférico, em suas realidades de vivíssimo contato, se transformou em problema.
Assim, o Terreiro não coube na 28a Bienal. Ainda assim, em contrapartida e inconscientemente, a curadoria propôs uma performance para o dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, dia de Zumbi.
Cheguei a cogitar a ação ‘Bate Folha para Zumbi’, um ritual em torno da origem da batida, da raiz da rua.
Sondei as bases da família de poetas, músicos, artistas, ativistas quilombolas que lutam por uma nação justa e que se reúnem em uma rede de iniciativas de cultura espalhadas pela cidade como também no espaço Mata Adentro. A resposta é que não vemos credibilidade na instituição para tal celebração.
A festa de Zumbi é expressão conjunta e alternada de vozes e fazeres, amplifica o discurso político de diferentes gerações.
Decidi declinar da participação na 28a Bienal de Artes de São Paulo.
Agradeço o convite de participação e desejo boa sorte para que a instituição encontre outros caminhos, pois o momento de renovação é inevitável.
Cordialmente Rodrigo Bueno
Celebra-se em 2008:
100 ANOS DE SOLANO TRINDADE
100 ANOS DE UMBANDA
100 ANOS DE CARTOLA
120 ANOS DA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA

