Artista plástico + Coletivo Mata Adentro

Textos do Artista

Dharma ou drama? A arte de ser quem somos

A impermanência é a lei máxima da vida em eterno movimento. Tudo se transforma à nossa volta, enquanto a morte e a vida, faces da mesma moeda, regem nossos sentidos diante do terror e do encantamento. Essa dança dual nos leva constantemente a reinventar nossa relação com o planeta, e com nossa própria percepção.

No dia em que completei 27 anos, a morte entrou sem bater à minha porta, e levou, na ponta de uma bala de metal, o meu irmão mais velho. Me dei conta (mais…)


Marx e a Revolução


Roberto Burle Marx (1909-1994), um dos maiores paisagistas do nosso tempo, é um artista único em sua pluralidade criativa. Sua arte integrada, ajudou a expandir a estética concretista além de sua rigidez formal. Reconheceu-lhe o ambiente natural, a partir de uma compreensão maior daquilo que chamava “o todo orgânico”, que envolve o meio e o homem.

Seu legado artístico se ramifica no domínio de vários meios.
De fundamento renascentista, sua obra celebra a colaboração, a ação entre as partes, anunciando a necessidade da sustentabilidade ambiental, baseada na parceria com a natureza, nos revelando maneiras de assimilar seu modo organizacional, como sócios de uma criação delicada e violenta.

Foram mais de dois mil projetos paisagísticos, que conviveram com a pintura, escultura, litogravura, arquitetura, tapeçaria, cerâmica, estamparia, cenografia, design de jóias e figurino. Musicista, o barítono Burle Marx, gozou de um intenso círculo de amigos, professores e colaboradores: de Mário de Andrade a Portinari, de Le Corbusier a Gropius, entre biólogos, agrônomos e poetas, cozinheiros e caboclos.

Avesso aos estrangeirismos,o paisagista diluiu o preconceito contra a natureza tropical, comumente vista como exótica e ameaçadora. Preconizou a preservação de nossas reservas como esforço fundamental para a saúde do planeta e para nossa identidade. Ele denunciou a crescente força destruidora do ambiente natural, validado pela corrente desenvolvimentista.

Seguindo o caminho de naturalistas viajantes como Von Martius, Saint-Hilaire e Gardner, Roberto realizou numerosas expedições por todo território nacional. Coletou espécies, entre as quais, algumas batizadas com seu nome. Nos trouxe a noticia de que muito ainda há por descobrir.

A planta é o seu objeto, matéria-prima não estática, indissociável do ecossistema. Tal conceito reverbera por toda sua obra. A estrutura poética que emana dessa relação com a natureza, vislumbra profundas analogias para o desenvolvimento contemporâneo do termo arte ambiental.

Seus jardins são composições com apelo formal de beleza indiscutível. Um conjunto inovador de ritmo e harmonia, entre o orgânico e o geométrico, fruto de associações fundadas sob um conhecimento sensível de fatores como: zonas de transição, simultaneidade, instabilidade, dispersão, fluidez e mobilidade. Termos comuns para a discussão da evolução antropológica, no tratamento de nossa problemática sócio-cultural, como sociedade e coexistência.

Embora tenha criado obras monumentais em jardins privados, o paisagista deixava clara sua predileção pelo espaço público. Burle Marx defendeu a sua multiplicação, como praças e parques, reservas florestais para cada município. Onde o equilíbrio, busca motriz do homem, pode se dar em ressonância com a fertilidade da cultura popular, em respeito aos modelos de preservação e cultivo, às dinâmicas da ação natural e à tradição dos povos da terra.

O seu Sítio Santo Antônio da Bica, em Guaratiba, RJ, reduto de uma das maiores coleções de plantas tropicais e sub-tropicais do planeta, foi doado em vida para o Estado. Hoje, o chamado Sitio Burle Marx está sob tutela do IPHAN, para garantir a integridade física e manutenção da propriedade. Esse tesouro pode ser visitado, como também o aconchego de sua casa, sua coleção de arte e artesanato, seus vários ateliês e laboratórios, envoltos por uma atmosfera construída para celebrar a vida.

Criticado pela escassez de textos teóricos acadêmicos, Burle Marx, prioriza a liberdade intuitiva em sintonia com o pragmatismo de sua extensa experiência. Suas numerosas conferências, registradas durante quatro décadas, organizadas por José Tabacow, nos permite uma visão panorâmica de seu pensamento em suas próprias palavras, relacionando jardim, ciência, ecologia e arte brasileira, sempre insistindo no fato de que não se pode falar de estética paisagística isoladamente, enquanto declarava os dois sentimentos que marcavam a sua visão de mundo e da natureza, “…de que São Francisco de Assis foi um paradigma: – o amor que nos impulsiona, e a humildade que nos corrige.”

BIO
Nascido em plena Avenida Paulista, ainda criança muda-se para uma chácara no Leme, Rio de Janeiro. Filho de pai alemão e mãe pernambucana, foi educado ao som de Wagner, embora preferisse Debussy e os roseirais de sua mãe. Em 1928 viaja com a família a Alemanha, onde por mais de um ano visita oculistas, entra em contato com as vanguardas artísticas, freqüenta concertos, óperas, mas em especial as estufas de plantas brasileiras de Dahlem.
De volta ao Brasil, um vizinho ilustre, o arquiteto Lucio Costa (posteriormente, executor do plano diretor de Brasília), lhe encomendou o primeiro jardim. Deu-se ai o começo de sua trajetória, tornando-se uma figura clássica do modernismo brasileiro. Foi diretor dos Parques e Jardins de Pernanbuco em 1930.
Burle Marx, colaborou com grandes projetos urbanísticos e exposições em quase todo Brasil além da Venezuela, Cuba, EUA, Malásia, entre outros com a ajuda inestimável de sua equipe. A partir de 1965, participaram ativamente como sócios do paisagista, – José Tabacow, até 1982 e Haruyohi Ono, até o falecimento de Burle Marx – na elaboração de importantes projetos como o Centro Cívico Santo André (1967), Jardins dos Ministérios do Exército, Agricultura, Justiça, Relações Exteriores, em Brasília, Edifício da Petrobrás (Rio de Janeiro -1969), Passeios de Copacabana (1970), Ministério do Exército – Brasília (1970), Largo da Carioca, Rio (1981), Banco Safra, São Paulo (1982), entre outros.

Serviço

Sítio Roberto Burle Marx,
Estrada Burle Marx 2019, (antiga estrada da Barra de Guaratiba),
Barra de Guaratiba, RJ, 
CEP: 23020-240
Tel/Fax: 0xx21 2410 1412 (Marcar visita) Email: srburlemarx@alternex.com.br

Bibliografia
Roberto Burle Marx – Arte & Paisagem
José Tabacow (org.)
Studio Nobel 2004, Segunda Edição

Roberto Burle Marx, uma fotobiografia, Soraia Cals, 1995
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Burle Marx, Espaços da Arte Brasileira, Vera Beatriz Siqueira, Cosac & Naify, 2001