Artista plástico + Coletivo Mata Adentro

Bio / Curriculum / Clipping


Rodrigo Bueno por ele mesmo:


Filho de Cunegunda, uma mulher cafuza do sertão da Bahia, Jobartana (foto ao lado)  é a combinação para José Barros Santana. Meu avô era um mulato que não sabia ao certo se nasceu em Oliveira dos Brejinhos ou em Macaúbas. Nunca foi a escola, garimpeiro desde adolescente, calçou o primeiro sapato aos 16 anos. Aprendeu ler e escrever no bordel que lhe dava abrigo na adolescência. Comerciante, caixeiro viajante, viveu entre Bahia, Mato Grosso e Minas. Mestre maçon grau 33, é inspiração de vida mim, sujeito amante de reformas e pouca conversa. Embora me chame Rodrigo Tales Santana Bueno, ele me deu o nome de Pitágoras, o ilustre pensador universal da Escola de Crotona. Jobartana casou-se em 1940 com Maria, nascida aos pés da Cachoeira da Fumaça, no Capão, Chapada da Diamantina. De pele alva, neta de portugueses, migrou, para Guiratinga, Mato Grosso, ainda em 1934. Em 1950 o casal se estabeleceu em Uberlândia, onde minha mãe nasceu, Maria Aparecida, irmã mais nova de Sônia Maria. Cida, casou-se com Bueno Netto, filho de Bueno Júnior, senhor das antenas e da eletrônica, que era filho de Bueno, descendente dos Bandeirantes cabras da peste.

Nasci em Campinas, SP, fiz faculdade de comunicação, porém a publicidade foi breve na minha vida. Foi a pintura decorativa ilusionista o meu ganha-pão por muitos anos até a vida real falar mais alto. Iniciei duas pós-graduações em Artes. A primeira na School of Visual Arts de Nova Iorque, até romper com o MFA e ser aceito no recém criado MFA&Consciousness, desta vez na JFK University, na Califórnia. Foi a partir daí que tradição Shambala e seus ensinamentos do Dharma, me ajudaram a expandir o entendimento sobre a correlação de forças dinâmicas da natureza em seu desdobrar na experiência real. A saudade do meu país me fez reconhecer a origem mestiça, a música, a favela, o povo em toda sua riqueza, simplicidade e espiritualidade. De volta em 2000, crio em São Paulo, o Ateliê/Mocambo Mata Adentro, onde trabalho e articulo diversos processos colaborativos que recuperam resíduos da cidade e transformam em ambientes, encontros, pinturas e jardins que falam da continuidade da vida, do eixo que sustenta o todo, da cultura em constante movimento.

Reciclagem, cultura popular, pintura decorativa, orixás e muito axé se misturam para compor esse lar/atelier cheio de personalidade, onde a fusão é a palavra de ordem.

Negras Raízes, por André Rodrigues.

Decoração e arte são conceitos indivisíveis, idéias que foram entrelaçadas entre si com o tempo através dos povos e das culturas. Desde o primitivismo rupestre anônimo (aquelas pinturas dos homens das cavernas) até o pós-modernismo assinado por artistas celebridades como Andy Warhol, a arte e a decoração – dois lados de uma mesa moeda – sempre fizeram parte do impulso humano em busca da beleza e do conforto. Por isso a disposição dos objetos, as cores, os adornos, texturas e formas de um ambiente sempre refletem a personalidade de quem ali reside. Dentro de cada universo pessoal, de cada lar a arte aparece das mais variadas formas, mas sempre se faz presente – ora em suntuosos quadros de grandes pintores e esculturas malucas saídas de Bienais (que custam os olhos da cara), ora em fotografias pessoais, artesanatos e materiais inusitados que podem ser encontrados até no lixão da cidade (que custam apenas o tempo gasto no garimpo). Quando se trata de arte, a assinatura pouco importa: o que vale é estabelecer um dialogo entre a obra em questão e seus interlocutores, que no caso da decoração, são os residentes.

Só essa viagem antropológica aos tempos antediluvianos é capaz de explicar a morada de Rodrigo Bueno, um artista plástico com pés fincados em São Paulo e com a cabeça livre, leve e solta, lá longe, talvez perto da África, talvez em outra dimensão – mas com certeza bem distante da mesmice colonizada que impera nos lares brasileiros. Entrar na casa do rapaz é como navegar pelos meandros de sua inconsciência artística (muito consciente, por sinal) cheia de camadas, reciclagens, florestas, entidades, filosofias e muito axé. Em sua carreira decana, Bueno passou por mestrados fora do país e mergulhou fundo na história da arte apenas para perceber que tudo que precisava para ser feliz e para fazer um bom trabalho estava aqui, em terra brasilis, enraizado na cultura negra popular, em terreiros de umbanda e candomblé, no hip hop, nos aterros sanitários e na simplicidade desse povo bendito.

A fusão fica bem clara nas obras do artista que misturam tintas com fotos, colagens com matérias reciclados e retratam desde imagens poderosas de entidades da turma de Iemanjá até selvas tropicais onde as luzes são na verdade colagens da Ponte do Brooklyn. O combustível para lá de autoral e superbrasileiro invade a casa logo na entrada da sala principal - um grande espaço em L dividido em três ambientes -, onde os visitantes e amigos são recebidos por um painel de madeira de demolição que mostra uma paisagem silvestre concebida pelo próprio. Esse é o primeiro sinal da forte personalidade do dono do pedaço que se projeta nas dimensões físicas do lar. Ainda nesse piso, madeiras, tocos de árvores, quadros (muitos quadros), esculturas e pinturas povoam cada centímetro do ateliê e dividem o espaço com peças originalmente caseiras: sofás, mesas, cadeiras e poltronas. No andar de cima fica o dormitório do artista, pertinho do quarto onde ele guarda seu caderno de desenhos e cria toda essa parafernália cósmica de obras.

Dentro de sua casa-conceito, no mundo exterior ou nos confins de sua complexidade existencial que acumula forças na cultura afrobrasileira, Rodrigo Bueno é incansável e não pára de cavocar fundo, sempre em busca de raízes.

Texto publicado Revista SPFW MAG! Edição #01.São Paulo, Junho de 2006.


Rodrigo Bueno
Campinas-SP, 1967
Vive e trabalha em São Paulo-SP

Formação
1998 – Pós Graduação em Arte e Consciência, Universidade John F. Kennedy, California, EUA (incompleto)
1996 – Pós Graduação em Artes Plásticas, School of Visual Arts, Nova York, EUA (incompleto)
1989 – Graduação em Comunicação Social, ESPM, São Paulo-SP.

Exposições Individuais
2007 – Jardín del Encuentro, La Jíkara, Medellin, Colômbia
2003 – Batida Sagrada, Espaço Mata Adentro, São Paulo-SP
2002 – Ageum do Batuque, Favela Chic, Paris, França.
1997 – Gêmeos: colagens e pinturas, Galeria Passado Composto, São Paulo-SP.


Exposições Coletivas

2010 – Ecológica no MAM de São Paulo, curadoria de Felipe Chaimovitch,  julho a agosto.

2009 – Visumix, parte da Satyrianas, curadoria de Fábio Delduque, Praça Roosevelt, São Paulo, SP;

Pintura e Instalação ao vivo, SPFW, rampa do prédio da Bienal de São Paulo, SP.

2008 – Cape Africa Platforms, Cidade do Cabo, Africa do Sul, palestra para a a Bienal de 2009.

Artista selecionado para 28º Bienal de artes de São Paulo, SP – Renunciou dia 22/10/2008

2008 – Mboraí Ocara, Galeria Vermelho, São Paulo, SP

2007 – Homens Trabalhando, galeria Florenceantonio.com, São Paulo-SP
2007 – Casa dos Macacos, galeria Florenceantonio.com, São Paulo-SP
2007 – Centenário Solano Trindade, Teatro Popular Solano Trindade, Embu-SP
2006 – Espaço SPFW/TIM/Julho, SP Fashion Week, São Paulo-SP
2003 – Passado Composto Século XX, São Paulo-SP
2002 – 10º Salão de Arte Contemporânea do Estado de São Paulo,
Edificio Copan, São Paulo-SP
1998 – ReFavela, Favela Chic, Paris, França.
1998 – Hybrid Time Art Festival, JFKU Art Annex, Berkeley-CA, EUA
1997 – Open Studios, São Francisco-CA, EUA

Residências
2007 – Encuentro Internacional de Medellin, Prácticas Artísticas
Contemporâneas, Castilla, Medelin, Colômbia.
2003 – Instituto Sacatar, Itaparica-BA
2003 – Centro de Arte Contemporânea do Caribe, Port of Spain, Trinidad e Tobago.

Oficinas

2009 -A Cabana, Centro Cultural Oswald de Andrade, convidado por Rubens Espírito Santo, São Paulo, SP.
2002 – Coordenação Música e Graffiti, Fundação Gol de Letra (Parceria com a Federation Lèo Lagrange, França), São Paulo-SP
2000 – Hip Hop e seus Elementos, Associação Cultural Monte Azul, São Paulo-SP.

Capas de Disco:

Z’África Brasil, Tem Cor Age, 2006

Mameluco Afro Brasileiro, Wesley Noog, 2008


Contatos:

www.mataadentro.com.br

www.myspace.com/mataadentro

bueno@mataadentro.com.br

tels.: +55 11 3673 2756

TIME OUT BRAZIL 2010 London Edition