Artista plástico + Coletivo Mata Adentro

Sobre o artista Rodrigo Bueno

Por  Camile Sproesser

Com pinturas e criações vivas, o artista que adentra a mata urbana para repensar os valores da humanidade, concentra força na experiência coletiva e na busca da transformação das qualidades artísticas

A original visão artística de Rodrigo Bueno se expressa através de arte pictórica, filosofia, espiritualismo, meio ambiente e política. Apesar de ser graduado em comunicação e ter pós-graduação em Arte e Consciência na John F. Kennedy University da Califórnia, e Belas Artes na School of Visual Arts, em Nova Iorque, sua formação fundamental não decorre da prática artística no circuito, mas da ação direta em diferentes frentes periféricas. A Mata Adentro, nome do lar e ateliê de Rodrigo Bueno, está viva e têm suas raízes nutridas por atividades artísticas há seis anos.

O registro iconográfico de artistas viajantes no período Brasil colônia, como Jean-Baptiste Debret, Johann Moritz Rugendas e Albert Eckhout, é grande fonte de reflexão em sua busca pela criação de uma obra viva. Suas pinturas têm como suporte, resíduos colhidos nas ruas, como plantas e madeiras, e retratam o universo da mata urbana. Num ciclo que dialoga com a história do Brasil e do mundo, Rodrigo Bueno refina a visão sobre a sociedade em que vivemos com pinceladas certeiras e cores vivas.

Sua obra possui a característica dorsal das grandes obras de arte: existe por si só, transcende a materialidade e abre a visão para um novo universo. Em uma sala de espelhos que incorporam a memória comum da terra, o artista insiste em desarmar o que o olhar colonizado chama de exótico e concebe a relação entre a idéia de mata anterior e memória interior.

“A mata anterior significa a força verde que rompe o asfalto e é a fonte de inspiração que ameaça o concreto efêmero da verdade urbana. É a vitalidade do solo que come de volta a cidade que o engoliu. A memória interior é o olhar, o sentimento intuitivo que descreve a identidade cotidiana e popular, de sabedoria ancestral. Cada resíduo desperdiçado nas caçambas da cidade contém uma memória interior, o reflexo de nós mesmos, no espelho de nossa relação com o planeta e os valores que sustentam a contemporaneidade. A valorização da natureza e a sensibilização do espaço urbano são correntes de resistência, de reencontro do homem com a sua própria origem”, explica o artista.

Outro aspecto essencial na obra de Bueno é a exaltação e o respeito pelas origens, “o passado está ativo enquanto nós somos parte de um processo histórico inacabado, em movimento. Negar o que já passou, dissimular o fundamento de onde pisamos, é interromper o fluxo de nossa própria criação e nos colocar de fora da autonomia de escolha do nosso destino”, reflete.

A investigação do trabalho de Rodrigo Bueno celebra a família de raças da humanidade e sugere familiaridade com sentidos mais íntimos e generosos, na troca com outros seres vivos e com o entorno. “A herança afro-indígena forma o alicerce oculto da cultura brasileira. Somos um conglomerado de nações mestiças esparsas pelo continente, no trabalho constante para sustentar os desperdícios de um sistema econômico pouco associado à cultura de costumes”, afirma Bueno.

A nutrir-se também em movimentos musicais de raiz, Rodrigo Bueno promoveu encontros intitulados ‘Batida Sagrada’, onde integrantes da velha guarda da embaixada do samba, junto a figuras essenciais na história do soul, como Nelson Triunfo, se encontravam na Mata Adentro para contar histórias e fazer música. E foi a partir destes encontros que a conceitualização da dinâmica dos elementos de manifestação criativa resultaram na concepção da teoria de Cultura em Constante Movimento.

“O hip hop representa o conjunto de manifestações da cultura de rua e se relaciona com o constante movimento inerente às sociedades urbanas, que ao se renovar, se nutre de sua ancestralidade para fortalecer elementos de música, poesia, dança e artes visuais. Antes de ser um simples objeto reduzido pela indústria de comunicação, o hip hop é fonte de códigos mestiços e novas linguagens sociais”, comenta.

Ainda na Califórnia, o artista entrou em contato com os ensinamentos de Chögyam Trungpa através da dharma arte, uma prática que influencia diretamente na percepção de como se relacionar com a criação. Um dos fundamentos essenciais consiste em interagir ativamente com o aqui e agora, no caminho inverso ao isolamento condicional da mente para o passado ou futuro longínquo. De acordo com Chögyam Trungpa, espiritualidade é um termo particular que significa ‘lidar com a intuição’, fator com o qual Rodrigo Bueno se relaciona de forma direta e profunda em suas expressões.

Na linha de pesquisa de Hundertwasser – artista austríaco que formulou o Manifesto da Terra contra a arte feita por pessoas desenraizadas, nos anos 50 – Bueno tem como válvula impulsionadora a renovação do papel da arte. “Nos dias de hoje estamos vulneráveis a outro tipo de tempo e acessibilidade à informação, e o estado é de inconformismo latente, motivo para estarmos seriamente comprometidos à experiência coletiva e sua relação com a força transformadora das qualidades artísticas”, completa Rodrigo Bueno.

Reciclagem, cultura popular, pintura decorativa, orixás e muito axé se misturam para compor esse lar/atelier cheio de personalidade, onde a fusão é a palavra de ordem.

Negras Raízes, por André Rodrigues.

Decoração e arte são conceitos indivisíveis, idéias que foram entrelaçadas entre si com o tempo através dos povos e das culturas. Desde o primitivismo rupestre anônimo (aquelas pinturas dos homens das cavernas) até o pós-modernismo assinado por artistas celebridades como Andy Warhol, a arte e a decoração – dois lados de uma mesa moeda – sempre fizeram parte do impulso humano em busca da beleza e do conforto. Por isso a disposição dos objetos, as cores, os adornos, texturas e formas de um ambiente sempre refletem a personalidade de quem ali reside. Dentro de cada universo pessoal, de cada lar a arte aparece das mais variadas formas, mas sempre se faz presente – ora em suntuosos quadros de grandes pintores e esculturas malucas saídas de Bienais (que custam os olhos da cara), ora em fotografias pessoais, artesanatos e materiais inusitados que podem ser encontrados até no lixão da cidade (que custam apenas o tempo gasto no garimpo). Quando se trata de arte, a assinatura pouco importa: o que vale é estabelecer um dialogo entre a obra em questão e seus interlocutores, que no caso da decoração, são os residentes.

Só essa viagem antropológica aos tempos antediluvianos é capaz de explicar a morada de Rodrigo Bueno, um artista plástico com pés fincados em São Paulo e com a cabeça livre, leve e solta, lá longe, talvez perto da África, talvez em outra dimensão – mas com certeza bem distante da mesmice colonizada que impera nos lares brasileiros. Entrar na casa do rapaz é como navegar pelos meandros de sua inconsciência artística (muito consciente, por sinal) cheia de camadas, reciclagens, florestas, entidades, filosofias e muito axé. Em sua carreira decana, Bueno passou por mestrados fora do país e mergulhou fundo na história da arte apenas para perceber que tudo que precisava para ser feliz e para fazer um bom trabalho estava aqui, em terra brasilis, enraizado na cultura negra popular, em terreiros de umbanda e candomblé, no hip hop, nos aterros sanitários e na simplicidade desse povo bendito.

A fusão fica bem clara nas obras do artista que misturam tintas com fotos, colagens com matérias reciclados e retratam desde imagens poderosas de entidades da turma de Iemanjá até selvas tropicais onde as luzes são na verdade colagens da Ponte do Brooklyn. O combustível para lá de autoral e superbrasileiro invade a casa logo na entrada da sala principal - um grande espaço em L dividido em três ambientes -, onde os visitantes e amigos são recebidos por um painel de madeira de demolição que mostra uma paisagem silvestre concebida pelo próprio. Esse é o primeiro sinal da forte personalidade do dono do pedaço que se projeta nas dimensões físicas do lar. Ainda nesse piso, madeiras, tocos de árvores, quadros (muitos quadros), esculturas e pinturas povoam cada centímetro do ateliê e dividem o espaço com peças originalmente caseiras: sofás, mesas, cadeiras e poltronas. No andar de cima fica o dormitório do artista, pertinho do quarto onde ele guarda seu caderno de desenhos e cria toda essa parafernália cósmica de obras.

Dentro de sua casa-conceito, no mundo exterior ou nos confins de sua complexidade existencial que acumula forças na cultura afrobrasileira, Rodrigo Bueno é incansável e não pára de cavocar fundo, sempre em busca de raízes.

Texto publicado Revista SPFW MAG! Edição #01.São Paulo, Junho de 2006.