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Há uma mata que antecede a cidade. Sob o asfalto, entre os muros, nas frestas do concreto, ela permanece em estado de espera. Não exatamente adormecida, mas à espreita. Basta uma fissura para que uma raiz encontre passagem, uma semente se instale e o verde retome silenciosamente aquilo que um dia lhe pertenceu. Essa imagem atravessa a obra de Rodrigo Bueno há muitos anos, e, em sua prática, a natureza nunca é paisagem ou tema; é presença ativa, matéria e força transformadora. Madeiras descartadas, móveis encontrados, fibras, plantas e objetos que já cumpriram outras funções ingressam em novos ciclos de existência. A matéria guarda memória e, sob as mãos do artista, germina. Seu Ateliê Mata Adentro é casa, jardim, laboratório, espaço de encontros e experiências coletivas. Mais do que um título, o expressivo nome materializa uma ideia essencial da poética do artista: não contemplar a natureza de fora, mas entrar nela, reconhecendo que somos por ela atravessados. Em Vozes da Jurema, essa pesquisa alcança um território de memória, resistência e espiritualidade. Jurema é uma palavra de muitas existências: designa diferentes plantas, dá nome à bebida utilizada em práticas rituais indígenas do Nordeste e nomeia também uma dimensão espiritual ligada às forças das matas. Pertence a um vasto conjunto de conhecimentos ameríndios que, ao longo do tempo, encontraram universos de matriz africana, constituindo zonas de contato, reconhecimento e transformação. Nesse território as fronteiras tornam-se porosas: entre o visível e o invisível, vivos e mortos, história e mito. São atravessamentos que encontram correspondência na construção das obras de Rodrigo, nas quais as fronteiras também são instáveis. Cores intensas, pinceladas direcionais, brilhos e contrastes produzem superfícies em permanente movimento. As figuras emergem da pintura sem jamais se separar inteiramente dela, ora nítidas, ora absorvidas pela trama de gestos, linhas e cores que as circunda. A pintura não ilustra presenças: as faz aparecer. E essa energia não se contém nos limites da tela. A linha pintada transforma-se em linha bordada que rompe a superfície; a madeira encontrada torna-se moldura. Fibras industriais convivem com sisal, cabaças e madeiras trazidas pela maré, móveis destinados ao descarte reaparecem cobertos por fios e cores, e a estridência artificial do plástico ganha inesperada exuberância. A pintura se torna objeto e o objeto se transmuta em corpo - corpos que tem vozes... Vozes da Jurema é um território de escuta e ressonância, no qual diferentes presenças encontram a possibilidade de aparição. Rodrigo não fala por esses mundos; aproxima-se deles, escuta-os e estabelece relações. Seu gesto não explica, mas cria condições para que as vozes se manifestem. O artista não revela segredos, mas abre frestas - por onde as raízes podem emergir. Denise Mattar
A FGV Arte convida para a exposição “Adiar o fim do mundo” na Praia de Botafogo, 190 .
Com curadoria de Ailton Krenak e Paulo Herkenhoff , a mostra reúne mais de 150 obras que abordam temas urgentes, como a devastação ambiental, a crise climática e os saberes dos povos originários. Reunindo diferentes linguagens visuais, Adiar o fim do mundo convida o público a refletir sobre o presente e o futuro a partir da arte, da crítica e da escuta de outras cosmologias – em especial as indígenas e as afrodiaspóricas.
Até Março de 2026
Lançamento de Livro sábado, dia 5 de abril aqui no ateliê
André Gravatá faz seu segundo lançamento aqui no ateliê sábado dia 5 de abril entre 15 e 18h. Entrada livre…
ADAPTAÇÃO – Exposição de acervo
ADAPTAÇÃO – Coletiva de Acervo Galeria Marília Razuk fevereiro a março 2025Curadoria Galciani Neves Adaptação evidencia a passagem de uma…
Cultivo Criativo – Pedagogia Terapêutica – Criatividade da Semente ao Fruto
(Per)Curso Cultivo Criativo Mata Adentro promove uma pedagogia terapêutica de escuta, acolhimento e prática, customizando estratégias de sensibilização do Cultivo…
Catálogo Prêmio Marcantonio Vilaça 2019/20
Baixe aqui o Catálogo completo Por ocasião do Prêmio Marcantonio Vilaça de 2019/2020, celebramos a publicação de um catálogo geral…
